As cruzadas do norte ou cruzadas
bálticas foram uma série de expedições militares e religiosas organizadas pelos
Papas da Igreja Católica e que tinham o objetivo de converter os povos pagãos
dos territórios europeus às margens do mar Báltico. Ocorreram entre os séculos
XII e XV e deram origem a uma das mais conhecidas ordens de cavalaria medieval,
a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos. Embora o objetivo inicial fosse converter ao
cristianismo as populações existentes naquela região, o movimento cruzado
rapidamente se transformou em uma luta pela aquisição de terras, riquezas e
poder político.
Expandindo os ideais da Cruzada
A Primeira Cruzada foi convocada
pelo Papa Urbano II no século XI com o objetivo de libertar a terra santa
(regiões de Israel e Palestina) do domínio dos muçulmanos. Esta convocação
atraiu o interesse e provocou a participação de muitos elementos sociais da
Europa medieval como o de nobres que buscavam através das conquistas ampliarem
seus territórios e obter prestígio social, de comerciantes que viam a
oportunidade de comercializar com os povos orientais após o sucesso inicial da
primeira cruzada e da população em geral, que atraídas pelo conceito de
remissão dos pecados ao pegar em armas contra os inimigos da igreja, ingressavam
nos exércitos cruzados.
Após o sucesso obtido pelos
cruzados em 1098, com a conquista de Jerusalém e a subsequente criação do ReinoLatino de Jerusalém os ânimos na Europa diminuíram, no entanto ainda haviam
partes significativas do continente europeu que ainda eram habitadas por povos
pagãos, descendentes das antigos tribos germânicas e eslavas e que praticavam
sua própria religiosidade, de características politeístas e de culto as forças
da natureza. Muitas dessas tribos ocupavam a parte oriental da Europa,
compreendendo parte dos territórios que hoje fazem parte da Polônia, Rússia,
Ucrânia, Finlândia, Suécia e da sub-região do Báltico (Estônia, Letônia e
Lituânia). Vizinho a estes territórios pagãos encontrava-se o Sacro ImpérioGermânico, onde atualmente encontra-se a maior parte da Alemanha, República
Checa, Áustria além de outros territórios. Os conflitos fronteiriços entre os
povos pagãos do Leste e os Senhores Feudais do Sacro Império Germânico eram
constantes, resultando em atrocidades como massacres das populações
fronteiriças, perseguição religiosa, pilhagem e destruição de aldeias e cidades
realizados por ambos os lados do conflito.
Neste contexto e inspirados pelos
ideais da Cruzada de combater os inimigos da Igreja os governantes do Sacro
Império Germânico viram a oportunidade de combinar os ideais das Cruzadas
(remissão dos pecados pessoais ao lutarem contra os pagãos) com suas ambições
pessoais por expansão territorial e ampliação de suas riquezas materiais na
forma de terras, peles de animais para confecção de roupas, mineração de âmbar e aquisição de escravos.
Em adição a isto, uma série de atrocidades cometidas contra cristãos na
fronteira e a execução de diversos missionários enviados pelo Sacro Império
Germânico para a região do Báltico (como denunciado pelo Arcebispo de Madeburgo
em 1108) serviram de pretexto para o aumento das tensões. Quando a SegundaCruzada foi convocada pelo Papa Eugênio III em 1149, muitos nobres alemães preferiram
partir para lutar contra as tribos eslavas nas fronteiras de seu império do que
ir se arriscar contra os muçulmanos no Oriente Médio.
Uma assembleia realizada pela
nobreza germânica em março de 1147, na cidade de Frankfurt, decidiu que a
prioridade do império na Cruzada convocada pelo Papa seria a conversão forçada
das tribos pagãs na Europa, e não a luta contra os muçulmanos no Oriente Médio.
A decisão da assembleia recebeu a aprovação e apoio do influente abade Bernardo
de Clairvaux, em abril o Papa Eugênio III declarou oficialmente que os
participantes desta cruzada receberiam, assim como os que seguiam para o
Oriente Médio, remissão de seus pecados. Sobre a questão, o Papa ainda se
pronunciaria decretando que “Nós expressamente proibimos por qualquer razão que
seja que uma trégua seja feita com estas tribos, seja por questões financeiras,
ou tributárias, até que, pela graça de Deus, eles sejam ou convertidos ou
eliminados”. A partir deste momento a Cruzada no norte passaria a ser uma
expedição de conversão armada.
Os cavaleiros Teutônicos
A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos
era a principio um ordem religiosa que visava defender e prestar auxílio médico
aos alemães que lutavam nas Cruzadas do Oriente Médio. Em 1098 a Ordem é
instituída também como uma Ordem Militar, assim como os Templários e
Hospitalários. No século XIII estes cavaleiros religiosos, que contavam com
vastos números de nobres em suas fileiras, se deslocam do Oriente Médio para o norte
da Europa devido as Cruzadas contra os pagãos que lá estavam ocorrendo.
Rapidamente passam a dominar
vastas áreas no norte dos territórios que hoje fazem parte da
Alemanha, Polônia e países Bálticos, criando um verdadeiro Estado teocrático,
com sua própria legislação e moeda corrente.
Os cavaleiros Teutônicos, devido
a sua enorme experiência militar, treinamento e riqueza se tornam uma potência
regional, forçando a conversão de grande parte da população pagã local. Ao
longo do século XIV a Ordem atingiria sua maior extensão territorial, no
entanto nesta época já havia muito pouco do ideal original de conversão
religiosa presente entre seus membros, sendo a Ordem muito mais um Estado, como
os demais países da época, do que uma entidade religiosa.
No século XV uma série de
alianças entre os Estados eslavos da região composta por lituanos, poloneses e
russos, já adeptos do cristianismo, imporia uma série de derrotas militares aos
cavaleiros da Ordem, que chegaria definitivamente ao fim com sua derrota na Batalhade Grunwald em 1410.
Consequências e legado
As Cruzadas do Norte ou Cruzadas
Bálticas devem ser entendidas como parte do movimento tardio do cristianismo em
se impor como forma religiosa dominante no mundo. O período no qual ocorreram é
o que os historiadores classificam como Baixa Idade Média, período marcado pela
contraofensiva cristã contra os muçulmanos e demais inimigos da Igreja, seja no
Oriente Médio, na península Ibérica com o movimento de reconquista em Portugal
e Espanha ou no norte da Europa contra os povos ainda não cristianizados.
A participação da Ordem dos
Cavaleiros Teutônicos nesta Cruzada deu outra dimensão para o conflito pois,
além de forçar a conversão ao cristianismo de vastas populações no norte da
Europa também lançou as bases do que seria no futuro o Reino da Prússia e por consequência,
da Alemanha moderna.
As Cruzadas no Norte seriam
também mais um capítulo na milenar disputa étnica e cultural de dois dos maiores
grupos populacionais europeus, os povos germânicos (do centro da Europa) e os
povos eslavos (do leste da Europa).
![]() |
| Extensão territorial do Sacro Império Germânico. |
![]() |
| Localização das tribos e Estados bálticos. Pagãos e oponentes do Império. |
![]() |
| Guerreiros pagãos dos Estados Bálticos. Lutavam para manter sua independência política e religiosa. |
![]() |
| Cavaleiro Teutônico. Mestres na arte da guerra. |
![]() |
| O combate montado era sua especialidade, embora fossem também formidáveis guerreiros à pé. |
![]() |
| As guerras continuas entre os Cavaleiros Teutônicos e as tribos pagãs do Báltico foram, assim como as Cruzadas no Oriente Médio, marcadas pela crueldade e violência. |
A baixo, um trecho do filme polonês de 1960, The Teutonic Order, onde a batalha de Grunwald é retratada.








Nenhum comentário:
Postar um comentário